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Pesquisas sobre a violência escolar e o suicídio ainda carecem de investimentos no Brasil

A falta e a baixa qualidade de dados no Brasil demonstram cada vez mais a necessidade de investimentos em estudos e pesquisas para avaliar o aumento de casos Bullying e um dos seus reflexos mais danosos, os suicídios no país. Um dado importante a ser considerado pela população gaúcha é o fato de que, entre as 15 cidades brasileiras com maior incidência, nove estão no Rio Grande do Sul.

Essas e outras informações foram divulgadas durante o 1º Seminário Interativo de Combate ao Bullying, uma iniciativa do gabinete do vereador Mauro Zacher (PDT), realizado na Câmara Municipal de Porto Alegre, no dia 25 de maio passado. A transmissão foi feita ao vivo na fanpage do parlamentar no Facebook e pode ser vista nos links disponibilizados aos interessados no final desta matéria. 

Christian Kieling, Doutor em Ciências Médicas, professor de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Faculdade de Medicina (UFRGS), e Coordenador do Programa de Depressão na Infância e na Adolescência do Hospital de Clinicas de Porto Alegre, compartilhou dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), que apontam o suicídio como a terceira principal causa de morte, totalizando 803.900 casos mundiais em 2014; entre menores de 19 anos o número chegou a 100 jovens que tiraram a própria vida no planeta.

No Brasil foram 10.653 casos, sendo destes 818 em menores de 19 anos. Pesquisas apontam que no país, entre 1980 e os anos 2000, os casos aumentaram 29,5%. Em Porto Alegre o crescimento é ainda maior, com um crescimento variável entre 2003 e 2013, que chega 51,8%

Carmem Oliveira, Psicóloga, doutora em Psicologia Clínica (PUC-SP), pesquisadora na área de Violência Juvenil e ex-secretária nacional dos direitos de crianças e adolescentes, destacou que o número de casos em meninos é consideravelmente maior quando se fala em suicídio efetivamente realizado. As meninas, ao contrário tem maior incidência quando se fala em tentativas. Os números que ambos apresentaram, no entanto, segundo eles, pode ser ainda muito maior devido ao não registro de ocorrências, “muito comum no caso de adolescentes, onde a família, por preconceito, vergonha, medo, prefere não se expor”, ressaltou Carmem.

O tema Prevenção ao Suicídio foi o terceiro em finalizando uma série de painéis que se iniciaram na manhã desta sexta-feira, dentro do I Seminário Interativo sobre Bullying realizado pelo gabinete do vereador Mauro Zacher. O segundo painel, que tratou sobre Violência e Justiça Restaurativa, foi apresentado por Marcos Rolim, Doutor e mestre em Sociologia (UFRGS), especialista em segurança pública (Oxford) e Jornalista (UFSM), Presidente do Instituto Cidade Segura e membro do Conselho Administrativo do Centro Internacional para Promoção dos Direitos Humanos (Unesco); e Afonso Armando Konzen, Mestre em Ciências Criminais (PUC), professor da Faculdade de Direito da Fundação Escola Superior do Ministério Público de RS, Coordenador do Núcleo de Estudos em Justiça Restaurativa da Escola Superior da Magistratura do RS e Membro aposentado do Ministério Público Federal.

Justiça Restaurativa

Na sua manifestação Rolim destacou o importante papel da mediação na resolução dos conflitos. Para ele, a Escola tem um papel fundamental nesse processo, a partir da conscientização de que os casos de Bullying não devem ser tratados, em regra, de forma punitiva, como caso de polícia. É preciso buscar, sempre que possível o reestabelecimento dos laços entre as partes, que é o princípio da Justiça Restaurativa, afirmou Rolim.

Rolim trouxe dados que reforçam a tese de que o ambiente escolar reduz a incidência da violência nos adolescentes. Pesquisas americanas apontam que um ano a mais de escolarização no ensino médio resulta em menos 10 pontos percentuais nas chances de um branco ser preso nos EUA e em 37 pontos percentuais as chances de um negro ser preso. “O mais impressionante é que, quando separamos os dados por tipo de crimes praticados, descobrimos que o maior impacto da educação está associado à redução das taxas de homicídio, agressões e roubo de veículos”, afirmou o sociólogo.

Já Afonso Konzen especificou como funcionam os chamados círculos restaurativos, que são baseados no respeito e igualdade, “onde ninguém é mais importante que o outro, onde ninguém fica invisível e se busca estabelecer a empatia, a alfabetização emocional para buscar a solução de problemas”. Segundo Konzen, cada um, vítima ou agressor, tem algo a oferecer e por isso é um processo de liderança compartilhada e as decisões são tomadas depois de reestabelecido os laços pelo diálogo, por consenso “e também por responsabilidade compartilhada por meio de palavras e ações”, relatou. Ele citou exemplos concretos para a plateia que esteve presente ao encontro no Plenário Otávio Rocha e ponderou que, quando uma comunidade se fortalece pelo movimento restaurativo acontece o maior reparo de valores para a educação. “Educadores apaixonados pela sua escola, recuperando sua condição docente e o desenvolvimento da sua competência”. Sugeriu ao vereador Mauro que encabece uma discussão capaz de criar políticas públicas de pacificação social, que eduque não apenas no aspecto do ensino formal, mas para a convivência; “que envolva à escola, a família, os gestores”.

Prevenção ao Bullying

No primeiro painel do dia, “Prevenção ao Bullying e Boas Práticas”, ficou demonstrada a necessidade, entre outras, de que é preciso criar um clima de acolhimento, que impõe regras, mas que envolve o conjunto da comunidade escolar, com um sentimento de pertencimento e capaz de compreender as diferenças como algo normal. Segundo Márcia Helena da Silva Melo Bertola, Professora do Instituto de Psicologia da USP, mestre em Psicologia Clínica, doutora e pós doutora em Ciências da USP, é preciso trabalhar também com a educação infantil. “Nessa fase já é possível desenvolver as habilidades necessárias para que as crianças possam, no futuro, construir as bases para compreender conteúdos mais complexos que as preparem para o aprendizado, acima do conteúdo pedagógico, para a vida”.

Marcia Helena também destacou a fala do Promotor de Justiça, Vieira da Cunha, ex-deputado e autor da lei federal, quando reforçou a necessidade de interação do papel das famílias nas escolas. Acrescentou, no entanto, que as universidades se somam a esse esforço pelo combate ao Bullying, porque permite que, “a partir da produção de conhecimento e pesquisas, dialogar e compartilhar seus achados com a sociedade”.

Na mesma linha, Carolina Lisboa, Psicóloga, doutora e mestre em Psicologia (UFRGS) apontou a necessidade da formação de redes transversais, que envolvam famílias, escolas e os diferentes níveis do Estado envolvidos no tema, especialmente da Educação, Saúde e Assistência Social. “Juntos, essa rede será capaz de democratizar conhecimento para mapear sintomas e buscar potenciais autores e vítimas de Bullying, produzindo um envolvimento coletivo da comunidade escolar e desses profissionais para que pais e professores, diante das atribulações do dia a dia, estejam mais preparados para perceber os sinais, muitas vezes claros, que podem servir como alerta aos casos de Bullying”, destacou Carolina.

Políticas no Estado

Na abertura do evento, pela manhã, o secretário estadual da Educação Ronald Krummenauer, apresentou dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, realizada em 2010 com mais de 60 mil alunos em escolas de 26 capitais e no Distrito Federal, que resultaram na prevalência de casos de Bullying para 32,6% de meninos e 29,1% de meninas, colocando o país nos níveis mais altos do mundo. Krummenauer destacou que o Estado tem como principal ação para tratar o tema, o Programa das Comissões Internas de Prevenção aos Acidentes e Violência Escolar (Cipave), presentes nas 2,4 mil escolas gaúchas.

“No segundo semestre de 2016, tínhamos 55.750 casos de violência registrados, reduzidos para 40.607 no mesmo período de 2017, o que representa uma queda de 27,2% em 1.796 escolas pesquisadas. Em relação ao Bullying, especificamente, o último levantamento, no final de 2017, apresentou queda de 33% dos casos”, disse o secretário, destacando uma redução de 1.520 casos no segundo semestre de 2017, em relação aos 6.083 registrados no primeiro semestre do mesmo ano.

Além de Krummenauer, participaram da abertura o Promotor de Justiça Carlos Eduardo Vieira da Cunha, que como deputado federal foi o autor do projeto de lei, inspirado no texto de Zacher, para instituir políticas nacionais de prevenção e combate ao Bullying; o presidente do Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe), Bruno Eizerik; o vereador de Canoas Dário Francisco da Silveira (PDT) e a coordenadora geral da Associações das Creches Beneficentes do Rio Grande do Sul (Acbergs), Alcema Moreira, que representa a entidade que irá certificar a participação dos inscritos ao Seminário.

Interatividade

Ao iniciar cada um dos painéis, os participantes receberam o conjunto de informações dos palestrantes pelo whatsaap previamente cadastrado. Também por meio do aplicativo foram encaminhadas as perguntas, respondidas ao final das falas.

Outra novidade, diante da crise estabelecida no transporte coletivo, em razão da falta de combustíveis, foi a criação de um grupo de carona solidária, para que os participantes que vieram ao seminário de carro, ou os que estavam a pé e com dificuldades de retorno, pudessem se inscrever e interagir, garantindo, assim, o retorno tranquilo a todos. 

Ainda, para aquelas pessoas que não conseguiram participar, seja pela dificuldade de acesso motivada pela falta de ônibus, especialmente quem reside no interior do Estado, ou mesmo para quem reside fora das fronteiras do Rio Grande do Sul e do país, foi disponibilizada a transmissão, em tempo real, de todo o seminário pela fanpage. Para assistir ao conteúdo, basta acessar os links abaixo e curtir a página do vereador Mauro Zacher no Facebook.

Parte 1  - https://bit.ly/2JhMLcy

Parte 2 - https://bit.ly/2IUGeBf

Parte 3 - https://bit.ly/2ISttHl

 

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